Vários tipos de memória:
Memória declarativa: é a capacidade de verbalizar um facto. Podemos expressar por palavras. (ex: pergunta-resposta) quando é intencionalmente activado, torna-se consciente. Não quer dizer, no entanto, que esse conhecimento corresponde à realidade – ele corresponde à nossa percepção da realidade. É o conhecimento de factos, conceitos, pessoas e acontecimentos. É também designado por Knowing-that (conhecimento declarativo).
Memória imediata: dura fracções de segundo. Um exemplo é a capacidade de repetir imediatamente um número de telefone que é dito. Estes factos são após um tempo completamente esquecidos, não deixando “traços”.
Memória de curto prazo: é a memória com duração de algumas horas. Neste caso, existe a formação de “traços de memória”. Ex: capacidade de se lembrar o que vesti no dia anterior, ou com quem se encontrou.
Memória de longo prazo: é a memória com duração de meses a anos. Ex: capacidade de aprender uma nova língua.
Memória de procedimentos: é a capacidade de reter e processar informações que não podem ser verbalizados, como tocar um instrumento ou andar de bicicleta. Esta é a mais estável, mais difícil de se perder.
Memória de trabalho / memória activa: uma parte do sistema de memória que está geralmente activado mas que tem relativamente pouca capacidade cognitiva. É uma activação da memória, não é um aspecto funcional.
Memória episódica: memória de determinados acontecimentos na vida. Ex: Perdi o comboio esta manhã.
Memória semântica: um componente da memória geral que diz respeito ao significado das palavras e dos conceitos.
Memória explícita: recuperação de lembranças em que existiu a consciência desta no momento da recuperação.
Memória implícita: recuperação de lembranças em que não há a consciência de recordar no momento da recuperação.
Memória automática: conhecimento que nos permite interagir com o mundo. São fundamentalmente constituídos por procedimentos opacos (acções desencadeadoras automaticamente – distinguir cheiros, ficar envergonhado, …) à esses procedimentos estão fora da consciência, operam inconscientemente, embora à posteriori possamos tentar reconstitui-los (torná-los num processo consciente), apesar de ser difícil fazê-lo. Este conhecimento tácito corresponde ao saber como agir numa dada situação, o viver numa situação por dentro, agindo. É também designado por knowing-how (conhecimento procedimental).
PROCESSOS DESCENDENTES / PROCESSOS ASCENDENTES
Os tratamentos de informação de que são capazes os nossos dispositivos perceptivos ou intelectuais efectuam-se a um nível fortemente inconsciente, senão mesmo automático. Para além disso, vão depender do tipo de estímulos ou de formas de encontros com o meio ambiente, e que uns serão "ascendentes" a partir do primeiro nível - o mais automático, ou seja, o neurossensorial ou neuroperceptivo - e os outros mais controlados conscientemente, os "descendentes", na medida em que vão resultar dos nossos esquemas mentais, das nossas necessidades conscientes ou dos nossos desejos.
Efeito de primazia:
Quando o sujeito recorda mais palavras do inicio da lista – é avisado que em seguida irá se perguntar.
Diz respeito ao maior nível de evocação dos primeiros itens, numa lista de livre evocação; depende, sobretudo, de repetições extra.
Efeito de recência:
Quando o sujeito recorda mais palavras do fim da lista à é o suposto porque não foi dito que era para escrever.
Melhor evocação livre dos últimos itens de uma lista baseada em informação do armazém de curto prazo.
Curva de aprendizagem - Memória de Rey à quanto mais eu oiço, mais eu recordo.
Amplitude de memória
Experiência:
O objectivo é determinar os valores de amplitude da memória imediata para dígitos com sequências ascendentes e paralelamente verificar se o valor de amplitude seria ou não afectado por instruções de agrupamento dos dígitos da série de três em três.
Capacidade de memorizar um determinado numero de categorias. Numero de dígitos que se consegue decorar. As estratégias de memorização são de 3 em 3.
Memorizar por grupos é mais fácil.
O número de itens não relacionados que um sujeito é capaz de reproduzir correctamente e por ordem, a seguir a uma única apresentação.
Factores contribuintes para a amplitude da memória :
Há várias estratégias de retenção: repetir, Agrupamento em três, Categorização
Efeito de saliência ou de Van Restorff à
No meio de tantos nomes de autores, reparamos na palavra psicologia, torna-se saliente. E foi estudado que o nome Freud é um nome saliente – em termos de memorização é mais fácil de recordar nomes que têm significado. Nome significativo.
Refere-se a felicidade de evocação de um item isolado numa área de itens similares.
Efeito de transferência: quando temos um nome pouco importante ao lado de um significativo, damos mais importância e podemos recordar.
Falsas memórias: Loftus-Carro
“As falsas memórias não são um erro de memória.” (Ibabe, 2006)
“... as falsas memórias referem-se ao facto de nos lembrarmos de eventos que na realidade não ocorreram. Informações são armazenadas na memória e posteriormente recordadas como se tivessem sido verdadeiramente vivenciadas.” (Roediger e McDermott, 2000, apud Pergher e Stein , 2001: 353).
As falsas memórias implicam uma experiência de recordação de um episódio relativamente completo que de facto não aconteceu. (Gleaves et al., 2004)
Loftus (1979): Aquisição, Retenção, Recuperação
Paradigma do Controle da Realidade: (Johnson, Hashtroudi Y Lindsay, 1993)
Referem três aspectos: Cognitivos, Sensoriais e Sequenciais.
“Quando uma memória se estimula automaticamente sem mediar o processo consciente, a familiaridade resultante poderá provocar uma atribuição inadequada da fonte” (Jacoby, 1991)
“A memória não é reprodutiva. Ao contrário, está articulada a uma série complexa de processos – entre os quais aqueles relativos à atenção e à percepção, cujo papel é preponderante – mediante os quais informações são codificadas de modo fragmentário e distribuídas em várias áreas do cérebro. ... A informação codificada, portanto, jamais será a cópia exacta do que foi visto ou do que ocorreu. A recuperação efectuada pela memória pode ser o resultado de processos de reconstrução, que reactivam e criam informações de natureza episódica e semântica relevantes para o que se deseja lembrar. Essas informações são integradas entre si, e a “recordação” é o resultado final dessa integração.” (Mazzoni, 2005)
Teórica
Não há aprendizagem sem memória.
Memória: “É a maneira como fazemos o registo do passado, para a sua posterior utilização no presente. Sem esta, não haveria nem antes nem depois, mas apenas o agora, nem recordar nomes ou reconhecer rostos, nem a possibilidade de fazer referencia aos dias, horas ou até segundos” – Andersen, 1990
Falha de memória: interferência em qualquer um destes processos, se houve um erro da codificação, o armazenamento está comprometido, ou pode ser no armazenamento, podemos ter codificado bem, e armazenado, mas não conseguimos recuperar porque podemos esquecer. Em caso de doença, Alzheimer, podemos deixar de ser capazes de armazenar.
Factores que afectam a memória: Factores temporais, Características do sujeito, Factores contextuais, Estratégias utilizadas, Tipo e características da informação, Aspectos emocionais, Fármacos e substâncias tóxicas e Atribuições Sociais.
Erros de memória são: Fracassos de recuperação, Erros de omissão, Fracassos de reconhecimento.
Técnicas para recuperar a memória: Recordação Livre, Hipnose, CBCA – Analise do Conteúdo da Realidade, SRA – Analise da Realidade das Declarações e Análise do Controlo da Realidade
Relação Memória com Aprendizagem
- A existência de memória depende de aprendizagem prévia;
- A aprendizagem pode ser mais claramente demonstrada por um bom desempenho num teste de memória.
Aprendizagem e memória envolvem 3 estádios:
- Codificação: É a primeira operação da memória, que prepara as informações sensoriais para serem armazenadas no cérebro. Consiste na tradução de toda a informação do estímulo para várias dimensões sensoriais efectivamente experienciadas.
- Armazenamento: Fase de retenção ou conservação dos conteúdos que podem ser mantidos por diferentes períodos de tempo. Alguma informação é armazenada no sistema de memória e mantida para a utilização subsequente.
- Busca / recuperação: fase de recordação ou extracção de informação armazenada do sistema de memória, evocação dos conteúdos que adquirimos e retivemos. É o momento em que o indivíduo “tenta lembrar-se”. Há dois métodos: recordação (perguntas com respostas curtas, baseadas em conhecimentos obtidos) e reconhecimento (testes de verdadeiro/falso).
Aprendizagem tem maior interesse mos processos de codificação e armazenamento e a Memória tem maior interesse os processos de busca.
Contudo, todos estes processos são inter-dependentes
Estrutura ¹ Processo
Estrutura: a maneira como se organiza o sistema de memória;
Processo: actividades que tomam lugar no sistema de memória
Armazéns de memória
Atkinson e Shiffrin (1968); o sistema de memória é constituído por diferentes armazéns mnésicos:
- Armazéns sensoriais: armazém associado com uma única modalidade (visão ou audição) que mantém a informação muito brevemente (quase instantâneo); mantém os conteúdos num lapso de tempo muito curto, mais considerado registo sensorial, capacidade muito ilimitada em termos cognitivos e detém a informação alguns segundos. Memória icónica: desaparece ao fim de meio segundo.
- Armazém de curto prazo: armazém de capacidade muito limitada que mantém a informação por alguns segundos
- Armazém de longo prazo: armazém de capacidade, praticamente, ilimitada que pode manter a informação por períodos de tempo extremamente longos
Como se processa?
1) Informação recebida pelos órgãos sensoriais
2) Alguma dessa informação é atendida e é processada pelo armazém de curto prazo
3) Alguma dessa informação é, depois, transferida para o armazém de longo prazo
4) Armazenamento de longo prazo depende, frequentemente, da repetição, com relação directa entre a quantidade de repetições no armazém de curto prazo e a força do traço mnésico armazenado
Armazéns sensoriais:
Armazém ICÓNICO (modalidade visual)
Armazém de capacidade limitada que mantém a informação visual durante, aproximadamente, meio segundo
Sperling (1960a)
Exp: imagem visual com 3 colunas, com 4 palavras cada (50 msec); recordavam 3 ou 4 palavras mas sabiam que havia mais
→ Então, a informação visual na memória icónica apagou-se antes de poder ser reportada?
Sperling (1960b); investigou esta hipótese
Exp:usou um tom - sinal para os participantes relatarem as letras de uma só coluna;
- A informação disponível era estimada multiplicando o número de letras evocadas por 3 (nº de colunas):
- Tom imediato ao estímulo: 9 letras
- Tom 0,3 seg depois: 6 letras
- Tom 1 seg depois: 4,5 letras (cf exp. anterior)
Conclusão: a informação na memória icónica decai ao fim de 0,5 sec.
Armazém ECÓICO (modalidade auditiva)
É um armazém de capacidade limitada que mantém a informação auditiva, aproximadamente, por 2 sec após a apresentação de um estímulo auditivo. (tem pouca capacidade).
Anne Treisman (1964); Dual task (escuta dicótica)
Exp: Numa tarefa de escuta de audição dicótica, pedia para as pessoas repetirem uma delas. A mensagem era a mesma. Quando a diferença era superior a 2s, deixava de perceber que a mensagem era a mesma.
Os resultados de Treisman (1964) justificam:
Exº Estarmos a ler e alguém nos perguntar algo. Respondemos, então: “- que disseste?”, mas, simultaneamente, percebemos que sabemos o que a pessoa disse
Armazéns de curto prazo
Exº: tentarmos recordar um número de telefone durante alguns segundos é um exemplo do dia-a-dia para ilustrar o armazenamento a curto prazo
1- Capacidade muito limitada
2- Fragilidade do armazenamento, como, por exº, a distracção fazer-nos esquecer o número
Duas formas clássicas de estimar a sua capacidade:
- MEDIDAS DE SPAN (avaliação breve)
Exº memória de digitos (digit span): O sujeito repete, de imediato, uma lista aleatória de números, na ordem correcta. Geralemente: 7 +/- 2 (números, letras ou palavras)
- MEDIDAS DE RECORDAÇÃO OU EVOCAÇÃO LIVRES
Miller (1956)
7 CHUNKS (unidades integradas de informação)
Exº FCP (1 chunk para um portista), ( 3 chunks para quem não está familiarizado com a sigla)
Mas, a capacidade de memória a curto prazo depende mais do número de chunks que do número de palavras.
Simon (1974)
a) 7 palavras, para palavras não relacionadas;
b) 22 palavras para 8 palavras-frase (exº Rato roeu...)
Donde: a) 7 chunks e b) aprox. 3 chunks
Assim: contradiz Miller(1956) que pensava que a memória a curto prazo tinha uma capacidade fixa em termos de chunks
-Efeito de recência: melhor evocação livre dos últimos itens de uma lista baseada em informação do armazém de curto prazo. Quando o sujeito recorda mais palavras do fim da lista.
Glanzer e Cunitz (1966)
Contando para trás durante 10 segundos, entre o final da apresentação da lista e o início da evocação, elimina-se, virtualmente, o efeito de recência, sem, contudo, produzir efeitos na recordação;
Os 2/3 últimos itens estão numa posição mais frágil (curto prazo); os outros já estariam na memória a longo prazo e não foram afectados pela tarefa.
Efeito de primazia: diz respeito ao maior nível de evocação dos primeiros itens, numa lista de livre evocação; depende, sobretudo, de repetições extra. Quando o sujeito recorda mais palavras do inicio da lista.
- Numa tarefa de evocação livre, as palavras do início da lista são mais repetidas (mentalmente) que as do meio da lista.
Rundus e Etkinson (1970) confirmaram esta hipótese após terem pedido a um conjunto de sujeitos para repetir, em voz alta, as palavras que desejassem, durante a apresentação da lista.
Efeito de recência: 2/3 itens
Medidas de span: 7 (+/- 2 ) itens
O Porquê da diferença?
- Span: repetem o maior nº possível de itens;
- Evocação livre: repetem menos itens.
Características da tarefa (Eysenck, 2000)
- Pragmática da instrução (Sargento-Santos; no prelo)
Armazéns de curto prazo versus longo prazo
O efeito de recência e as medidas de span revelam, contudo, a limitada capacidade de armazenamento da memória a curto prazo.
Não se conhecem, contudo, limitações na memória a longo prazo.
Distinções:
- Pacientes com lesões cerebrais
- Pacientes com amnésia têm pior memória a longo prazo para diversos tipos de informação, mas tem memória a curto prazo, praticamente, intacta quando avaliados com tarefas de digit span e com tarefas de livre evocação (recência) (Baddeley e Warrington, 1970)
- Contudo, poucos tinham o inverso: boa memória a longo prazo e má a curto prazo
Exº O caso KF (acidente de moto, com traumatismo crâneo-encefálico) (Shallice e Warrington, 1970): só recordava 2 algarismos em tarefas de digit span, sem problemas na memória a longo prazo.
- Estes resultados sugerem que diferentes partes do cérebro estão envolvidas na memória a longo e a curto prazo
- Verificaram que se esquecia mais de letras e dígitos auditivamente do que de material visual
- O défice na sua memória a curto prazo era só ao nível de materiais verbais (exº, letras e palavras), não se estendendo a sons significativos (ex: o miar do gato)
- Atkinson e Shiffrin (1968) sugeriram um só armazém a curto prazo;
- O estudo do caso KF não suporta esta teoria. Teria de existir mais que um armazém. No caso de KF, o seu défide situar-se-ia ao nivel do que Shallice e Warrington (1970) definiram como armazém auditório-verbal a curto prazo.
- Atkinson e Shiffrin (1968) sugeriram um só armazém a longo prazo;
- É, também, insustentável, esta posição. Um só armazém com tanta e tão divergente informação (2+2=4; Mozart compôs a flauta mágica; ontem almocei rojões à minhota; andar de bicicleta; o Benfica já não é campeão há 3 anos, etc. etc. etc.) é altamente improvável, quer no plano funcional, quer no plano anatómico.
- A repetição no curto prazo leva a informação para o longo prazo. Tal não é, por exemplo, confirmado pelas flashbulb memories, que não têm, praticamente repetição.
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